Era começo de noite, e sentia-se aquele leve cheiro de
asfalto molhado, denunciando a chuva que caíra no solo quente até pouco tempo.
A travessa não estava acostumada a ter visitantes,
ninguém em sã consciência passava por ali em dia de semana, feriado talvez,
época de outubro, mas bem em uma quarta-feira? Decididamente não poderia ser
alguém da região.
Não dando atenção a toda esta contradição, a garota passava
pelo o que já fora o lugar de um imenso parque de diversões, andava no que
parecia ser uma tentativa fraca de trilhar uma linha reta, desviando aqui e ali
de antigos resquícios que não puderam ser retirados, e que agora davam
prejuízos ao dono do novo estacionamento.
Alheia a tudo isso, a garota continuava entretida,
aparentemente manter seu caminho e cantarolar as músicas do I Pod esgotava toda
a sua generosa carga de concentração. Ela sabia que era o tipo de coisa que
possivelmente a meteria em confusão, e já o fizera, passara vergonha em sala de
aula por cantar muito alto sua canção preferia, usando fones de ouvido.
Mesmo assim, não tinha razão para se preocupar com coisa
alguma, logo estaria chegando à casa da amiga, onde poderiam juntas levar a
noite se divertindo, consultando a internet ou mesmo assistindo algum seriado.
Atravessou o parque sem se dar conta, esticando o pescoço
para enxergar os dois quarteirões que ainda restavam até a casa da amiga.Por
que sempre ela deveria ir até a outra? Isso já passava de amizade e caia no
abuso! Mas que remédio, ela sempre cedia, eram as duas, o tipo de amigas que
não conseguiam se irritar uma com a outra, ainda que uma evidentemente caísse
em desvantagem nessa disputa.
Foi com tudo isso na cabeça, e ainda com o colossal
esforço de andar em linha reta e lembrar-se da letra da música, que ela não
percebeu os sinais de ausência na residência da amiga. Janelas, portas, grades,
tudo fechado ou com cadeados. A primeira sensação foi de raiva, vontade de
gritar, com o primeiro transeunte que se atrevesse a presenciar aquele momento
embaraçoso, mas ela sabia que não faria isso.
A culpa era dela, afinal, quem foi que teve preguiça de
ligar antes de sair de casa? Não importava, começava a escurecer, e antes do
escuro, o frio lhe incomodava, não tinha muita proteção natural contra ele, o
que já havia lhe rendido bons apelidos, decidiu voltar pra casa, e não falar
com ela por uma semana, talvez duas...
Se estivesse com menos coisas na cabeça, talvez tivesse
notado que o vigia do parque não estava mais por lá, nos quinze minutos que
sucederam a saída dela até a volta ele achara algo mais interessante para
fazer que aquilo que fora pago.
Mas era sempre assim com ela, e se não fosse o cadarço, desamarrado
como sempre, lhe forçado a se abaixar para dar-lhe um jeito, ela não teria
visto duas figuras se aproximando, visivelmente tentando passar um ar de
passeio casual, mas quando se anda por um grande estacionamento vazio, por
volta das sete da noite, e muito perto, fica difícil passar a impressão de que
se está tão próximo por acaso.
Agora a situação estava mesmo séria, uma sensação de urgência
a forçou a tirar os fones e guarda-los no bolso, embora ela duvidasse que
aquilo faria diferença agora. As duas figuras não eram mais altas que ela, com uma
segunda olhada por cima do ombro, ela pôde assimilar alguns detalhes: trapos,
sujeira em excesso, nada que pudesse ser justificado por menos que semanas sem
um banho.
Ela ouvira casos de pessoas que haviam sido abordadas por
mendigos na rua, mas outras vezes era algo pior, garotos de rua que se drogavam
muito antes de aprender a ler e que conheciam muito mais o aroma da cola do que
o de um condicionador.
Deu uma tapa na própria testa, aquilo não era hora para
se lembrar dessas histórias, não podia ficar em pânico ali, não naquele
momento, se ela tinha problemas para se concentrar estando calma, não queria
estar desesperada e sem ajuda, nem de seu próprio cérebro...
Decidiu que discrição não a ajudaria, então caminhou mais
decidida com passos mais largos, o que para ela era razoavelmente fácil. Depois
de 50 metros arriscou olhar de novo, mas não havia necessidade, antes de virar
o pescoço suficiente, ouvi os passos atrás de si se tornarem uma acelerada
corrida, abandonando o tom de marcha que já era assustador demais, desatou-se a
correr em carreira aberta, dane-se se fossem perceber, não havia ninguém por
perto, cedo da noite e não havia ninguém por ali.
A travessa agora via que sua má fama não era de jeito
nenhum infundada, e que aquela garota estava pagando o preço de não dar atenção
ao que falavam sobre passar por ali em dias normais, de pouco ou nenhum
movimento. A garota correu o que pôde passando por onde conhecia, mesmo que
pouco, sentindo os passos descalços se aproximarem cada vez mais.
Achando que poderia ganhar tempo entrando em alguma transversal
(e se orgulhando imediatamente da ideia) dobrou na primeira esquina, pronta pra
pedir ajuda para o primeiro desconhecido que encontrasse, e esse trataria agora
com delicadeza e não com gritos de raiva.
O orgulho durou pouco. Se fosse outra situação, perceberia
que mesmo tendo pernas mais longas, não poderia ganhar tanta distância assim
estando com os cadarços desamarrados. Caíra em uma armadilha, pois o resto do
grupo de garotos a aguardava na nova travessa em que esperava encontrar alguma
ajuda.
Olhou-os bem, pois era detalhista e não havia nada mais
interessante ali.
Tinham não mais que 16 anos, cabelos desgrenhados,
crespos e lisos, em uma miscigenação que provava que etnia não fazia diferença
onde a pobreza e o desespero imperavam
Vestindo-se não melhor que os companheiros do parque,
eles se aproximavam da garota sorrindo, uns visivelmente tão ou mais nervosos
que ela própria, mas uns três que vinham a frente mostravam confiança nos
olhos, a confiança daqueles que sabem que mesmo que fossem pegos, seriam
acobertados pela lei fraca de um país sem pulso, e isso a assustava demais.
Agora sim ela se permitiu ficar em pânico.
Atrás, os dois outros garotos haviam chegado,
visivelmente satisfeitos com o trabalho bem feito, a encenação que dera certo,
começavam a se aproximar da menina, com a atitude de quem aproveitaria a
recompensa primeiro, nada mais justo, eles haviam feito todo o trabalho.
Já sem ideia do que fazer, ela buscava apoio em qualquer
coisa, a parede de alvenaria encardida teria de cumprir esse papel...
Sentindo o hálito
viciado do seu perseguidor, ela tentava manter a cabeça em algum outro lugar
que permitisse que ela não estivesse ali quando aqueles inocentes fizessem
fosse lá o que queriam, mas ela não queria mesmo estar por ali, de forma alguma...
e foi com esse pensamento em mente, que sua consciência a levou para longe, um
lugar que conseguia ser mais frio que a palma da mão do drogado que havia lhe
perseguido e agora segurava seu braço.
Acordou com uma brisa gelada, e por minutos não conseguiu
entender nada do que se passava. Levou o dobro do tempo para entender o que
havia lhe acordado, e sequer lembrava-se de ter dormido.
Havia uma sirene. Policia? Há claro, por que agora que
estava segura é obvio que eles haviam aparecido... Espere, estava segura? Abriu
os olhos, e se assustou quando percebeu onde estava: viu o céu primeiro, depois
notou os prédios à volta e se deu conta de que estava em um terraço de um
prédio.
Sem se prender a um raciocínio lógico, seguiu os
instintos e andou até a fonte dos ruídos, na base do edifício. Era aquele onde
havia se escorado, onde havia sido encurralada. Algo visivelmente não fazia
sentido, não havia subido até um terraço, e decididamente não havia escolhido
deitar-se ali. Olhando para baixo, reconheceu a cena que se espera assistir em
um seriado policial, CSI talvez. Mas sem o brilhantismo e fantasia da tevê, a
cena era mesmo parecida com aquelas que se vê na capa do caderno policial do jornal,
o tipo de cena que nos tira o sono e que se deseja nunca ter de presenciar...
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