domingo, 5 de agosto de 2012

Parte 1 - Parque da inocência.



   Era começo de noite, e sentia-se aquele leve cheiro de asfalto molhado, denunciando a chuva que caíra no solo quente até pouco tempo.
   A travessa não estava acostumada a ter visitantes, ninguém em sã consciência passava por ali em dia de semana, feriado talvez, época de outubro, mas bem em uma quarta-feira? Decididamente não poderia ser alguém da região.
   Não dando atenção a toda esta contradição, a garota passava pelo o que já fora o lugar de um imenso parque de diversões, andava no que parecia ser uma tentativa fraca de trilhar uma linha reta, desviando aqui e ali de antigos resquícios que não puderam ser retirados, e que agora davam prejuízos ao dono do novo estacionamento.
   Alheia a tudo isso, a garota continuava entretida, aparentemente manter seu caminho e cantarolar as músicas do I Pod esgotava toda a sua generosa carga de concentração. Ela sabia que era o tipo de coisa que possivelmente a meteria em confusão, e já o fizera, passara vergonha em sala de aula por cantar muito alto sua canção preferia, usando fones de ouvido.
   Mesmo assim, não tinha razão para se preocupar com coisa alguma, logo estaria chegando à casa da amiga, onde poderiam juntas levar a noite se divertindo, consultando a internet ou mesmo assistindo algum seriado.
   Atravessou o parque sem se dar conta, esticando o pescoço para enxergar os dois quarteirões que ainda restavam até a casa da amiga.Por que sempre ela deveria ir até a outra? Isso já passava de amizade e caia no abuso! Mas que remédio, ela sempre cedia, eram as duas, o tipo de amigas que não conseguiam se irritar uma com a outra, ainda que uma evidentemente caísse em desvantagem nessa disputa.
   Foi com tudo isso na cabeça, e ainda com o colossal esforço de andar em linha reta e lembrar-se da letra da música, que ela não percebeu os sinais de ausência na residência da amiga. Janelas, portas, grades, tudo fechado ou com cadeados. A primeira sensação foi de raiva, vontade de gritar, com o primeiro transeunte que se atrevesse a presenciar aquele momento embaraçoso, mas ela sabia que não faria isso.
   A culpa era dela, afinal, quem foi que teve preguiça de ligar antes de sair de casa? Não importava, começava a escurecer, e antes do escuro, o frio lhe incomodava, não tinha muita proteção natural contra ele, o que já havia lhe rendido bons apelidos, decidiu voltar pra casa, e não falar com ela por uma semana, talvez duas...
   Se estivesse com menos coisas na cabeça, talvez tivesse notado que o vigia do parque não estava mais por lá, nos quinze minutos que sucederam a saída dela até a volta ele achara algo mais interessante para fazer que aquilo que fora pago.
   Mas era sempre assim com ela, e se não fosse o cadarço, desamarrado como sempre, lhe forçado a se abaixar para dar-lhe um jeito, ela não teria visto duas figuras se aproximando, visivelmente tentando passar um ar de passeio casual, mas quando se anda por um grande estacionamento vazio, por volta das sete da noite, e muito perto, fica difícil passar a impressão de que se está tão próximo por acaso.
   Agora a situação estava mesmo séria, uma sensação de urgência a forçou a tirar os fones e guarda-los no bolso, embora ela duvidasse que aquilo faria diferença agora. As duas figuras não eram mais altas que ela, com uma segunda olhada por cima do ombro, ela pôde assimilar alguns detalhes: trapos, sujeira em excesso, nada que pudesse ser justificado por menos que semanas sem um banho.
   Ela ouvira casos de pessoas que haviam sido abordadas por mendigos na rua, mas outras vezes era algo pior, garotos de rua que se drogavam muito antes de aprender a ler e que conheciam muito mais o aroma da cola do que o de um condicionador.
   Deu uma tapa na própria testa, aquilo não era hora para se lembrar dessas histórias, não podia ficar em pânico ali, não naquele momento, se ela tinha problemas para se concentrar estando calma, não queria estar desesperada e sem ajuda, nem de seu próprio cérebro...
   Decidiu que discrição não a ajudaria, então caminhou mais decidida com passos mais largos, o que para ela era razoavelmente fácil. Depois de 50 metros arriscou olhar de novo, mas não havia necessidade, antes de virar o pescoço suficiente, ouvi os passos atrás de si se tornarem uma acelerada corrida, abandonando o tom de marcha que já era assustador demais, desatou-se a correr em carreira aberta, dane-se se fossem perceber, não havia ninguém por perto, cedo da noite e não havia ninguém por ali.
   A travessa agora via que sua má fama não era de jeito nenhum infundada, e que aquela garota estava pagando o preço de não dar atenção ao que falavam sobre passar por ali em dias normais, de pouco ou nenhum movimento. A garota correu o que pôde passando por onde conhecia, mesmo que pouco, sentindo os passos descalços se aproximarem cada vez mais.
   Achando que poderia ganhar tempo entrando em alguma transversal (e se orgulhando imediatamente da ideia) dobrou na primeira esquina, pronta pra pedir ajuda para o primeiro desconhecido que encontrasse, e esse trataria agora com delicadeza e não com gritos de raiva.
   O orgulho durou pouco. Se fosse outra situação, perceberia que mesmo tendo pernas mais longas, não poderia ganhar tanta distância assim estando com os cadarços desamarrados. Caíra em uma armadilha, pois o resto do grupo de garotos a aguardava na nova travessa em que esperava encontrar alguma ajuda.
  Olhou-os bem, pois era detalhista e não havia nada mais interessante ali.
  Tinham não mais que 16 anos, cabelos desgrenhados, crespos e lisos, em uma miscigenação que provava que etnia não fazia diferença onde a pobreza e o desespero imperavam
   Vestindo-se não melhor que os companheiros do parque, eles se aproximavam da garota sorrindo, uns visivelmente tão ou mais nervosos que ela própria, mas uns três que vinham a frente mostravam confiança nos olhos, a confiança daqueles que sabem que mesmo que fossem pegos, seriam acobertados pela lei fraca de um país sem pulso, e isso a assustava demais. Agora sim ela se permitiu ficar em pânico.
   Atrás, os dois outros garotos haviam chegado, visivelmente satisfeitos com o trabalho bem feito, a encenação que dera certo, começavam a se aproximar da menina, com a atitude de quem aproveitaria a recompensa primeiro, nada mais justo, eles haviam feito todo o trabalho.
 Já sem ideia do que fazer, ela buscava apoio em qualquer coisa, a parede de alvenaria encardida teria de cumprir esse papel...
   Sentindo o hálito viciado do seu perseguidor, ela tentava manter a cabeça em algum outro lugar que permitisse que ela não estivesse ali quando aqueles inocentes fizessem fosse lá o que queriam, mas ela não queria mesmo estar por ali, de forma alguma... e foi com esse pensamento em mente, que sua consciência a levou para longe, um lugar que conseguia ser mais frio que a palma da mão do drogado que havia lhe perseguido e agora segurava seu braço.
   Acordou com uma brisa gelada, e por minutos não conseguiu entender nada do que se passava. Levou o dobro do tempo para entender o que havia lhe acordado, e sequer lembrava-se de ter dormido.
   Havia uma sirene. Policia? Há claro, por que agora que estava segura é obvio que eles haviam aparecido... Espere, estava segura? Abriu os olhos, e se assustou quando percebeu onde estava: viu o céu primeiro, depois notou os prédios à volta e se deu conta de que estava em um terraço de um prédio.
   Sem se prender a um raciocínio lógico, seguiu os instintos e andou até a fonte dos ruídos, na base do edifício. Era aquele onde havia se escorado, onde havia sido encurralada. Algo visivelmente não fazia sentido, não havia subido até um terraço, e decididamente não havia escolhido deitar-se ali. Olhando para baixo, reconheceu a cena que se espera assistir em um seriado policial, CSI talvez. Mas sem o brilhantismo e fantasia da tevê, a cena era mesmo parecida com aquelas que se vê na capa do caderno policial do jornal, o tipo de cena que nos tira o sono e que se deseja nunca ter de presenciar...

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