Já fazia 4 horas desde que ela
acordara naquele terraço. Devido à altura, o frio cobrava seu preço,
procurando cada brecha no casaco que ela usava como cobertor ao redor de
si mesma.
Estava ali, na mesma
posição desde que se dera conta de onde tinha ido parar, desde que visualizara a
cena em que estivera, e que não conseguia explicar como saíra.Claro,
a esta hora, as autoridades já haviam empacotado boa parte dos pedaços,
mas ela sempre fora do tipo imaginativa. Era capaz de enxergar em sua cabeça
como estariam aqueles garotos antes que os policiais chegassem.Em cima das
latas, espalhados pelas poças, em uma terrível bagunça onde
ninguém conseguiria reclamar suas partes de direito. Se antes a vida os havia
tornados unidos, encontravam nessa retalhação a mais doentia comunhão.
Ela balançou a
cabeça novamente, tentando afastar as cenas da mente, não queria ver aonde
isso iria dar, pior, não queria tentar se colocar ali, ainda tinha
esperanças de dormir, quem sabe daqui a uma ou duas noites, o que não
conseguiria se fosse mais que espectadora, ela tinha de se convencer de
que havia saído dali antes que o que quer que fosse tivesse acontecido.
Com uma súbita noção
da realidade, percebeu a ausência das sirenes. Isso estava se tornando
constante, momentos em que o corpo simplesmente ignorava que deveria
avisa-la do que acontece no mundo. Claro, antes ela culpava o I Pod por
isso, mas estava ficando sem bodes expiatórios.Tentou levantar, o que absurdamente pareceu fácil.Não arriscou uma
nova olhada pela borda, muito melhor seria descer pelas escadas e, se
encontrasse alguém, um inquilino ou um policial, fingira ser uma moradora,
ou quem sabe uma visita.Descobriu que o edifício era menor do que
imaginava.
Cinco pavimentos,
quando julgava ser uns sete, chegou até o térreo mais tranqüila, andar lhe
fazia pensar melhor, sempre havia sido bom e a desculpa perfeita para
deixar de lado qualquer coisa que estivesse lhe aborrecendo.Por sorte, a
entrada do prédio ficava longe do beco, e ela pode fingir que não havia
nada de mais por ali, seguiu pela rua paralela, um pouco mais cheia de
gente. Claro, agora sim as pessoas apareceriam, depois do que houve, todos
querem ter um assunto para o dia seguinte: "To te falando, eu vi,
falo sério, havia sangue por toda a parte, se eu não fosse macho pra
caramba teria vomitado ali mesmo!", "Eu realmente tive
sorte, havia passado por lá de manhãzinha, se não fosse pela minha
sobrinha que me ligou...".Gente imbecil, transformando tudo em
mais uma maneira de exaltar a si mesmo.
Passando pela guarita do
condomínio, fez todo o protocolo, deu boa noite ao porteiro que,sabia ela, conversaria sobre o
horário que ela estava chegando com qualquer um que parasse tempo suficiente perto
dele. Passou pelo playground onde teve anos de esfolamento de joelhos e
palmas das mãos.Olhou pela janela de casa, procurando sinais de que a mãe
estivesse por lá.Luz. Estava. Que droga...estava tarde, e ela não tinha
avisado nem dado sinal de vida.
Achou melhor
ficar na dela, suas visitas sempre demoravam mesmo, o lance é que dessa vez
talvez tivesse exagerado, mas dado os últimos acontecimentos,
sua mãe até que estava no lucro, ela poderia nem ter voltado pra casa.
Precisava parar com esse tipo de humor negro.Entrando pela porta da cozinha,
contou até sete e ouviu sua mãe gritando lá de dentro:
- Lembrou que tem casa....-
Ela já havia aprendido a
lidar com esse tipo de piada, mas não
estava com paciência pra
isso:
- Oi mãe, boa noite também.
Alguma novidade?- Deveria ter investido nas aulas de teatro, decididamente
tinha talento para dissimulação:
- Ah não, tudo na mesma,
seu pai já viajou, ele queria poder te levar pra comprar aquela calça, mas
como você não apareceu, fica pra semana que vem, ou eu posso ir com você
sabe... .-
Isso era outro ponto
que decididamente ela estava acostumada, sua mãe tentando dar uma de
coruja, para que? Era uma espécie de disputa:O que acabaria primeiro, se a
imaginação dela para passar a perna na filha, ou a paciência desta. Ao longo dos
anos teve altos e baixos,
mas ela até que tinha se esforçado recentemente... :
- Aaah...não não,
pódeixar, nós vamos semana que vem. Além disso, a senhora não dirige, não
vai querer ir de táxi nem pegar ônibus a esta hora, não é?
- Não enche! Eh eh eh, ok,
você venceu, mas depois não reclame quando eu esconder o seu mp3,4, 360 ou
sei lá o que!
- Mãe, é um I Pod, e o 360
é o meu video-game,sinceramente, não é uma conta muito difícil!
- Tá tá...a propósito,
achei aquele seu fone enorme, que te deixa igual a um E.T., ele tava lá, metido
na roupa suja.-
- Brigada, ó mãe, te adoro!
- Notável
filhinha...notável... .- Não era uma mãe de todo mal, se comparada à maioria
que nunca tem tempo pra conversar ou falar merda com a filha como a dela
fazia, até que se podiam considerar amigas.
Mais isso poderia
esperar, ela estava cansada de ter de usar aqueles fones que se metiam em
seus ouvidos, sua orelha já não era grande coisa, alargadores,
brincos e piercing nunca foram uma opção por causa disso, o fone
("headfone mãe!") era uma das coisas que ela mais gostava, um
acessório que não poderia faltar sempre que saia, junto do celular,
carteira, do I Pod... .A mão foi ao bolso em procura do aparelho, e voltou
triste, vazia, se sentindo uma idiota. Garganta ficou seca, o estômago deu
um giro que qualquer cirurgião xingaria a mãe se tivesse que
desfazer.
Sentiu falta de ar.
Metade de tudo isso era drama ela sabia, mas não interessava, "CADÊ O MEU I
POD!!"Já estava chegando na porta da rua quando a mãe ( que foi jogada 3
metros no ar depois de ser atropelada) disse:
- Uh caramba guria! Calma
aí onde pensa que vai!?!-
- Preciso ir atrás de algo
mãe, depois a gente se fala!-
- Pera garota, a Marília
ligou, você esqueceu que hoje tinha qu...-
E ficou por isso
mesmo, nunca ouviu o que a mãe havia gritado pois já estava na metade da rua
quando a frase terminou.
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