Ofegava, e somente sabia disso graças ao acordo que corpo e mente haviam feito tempos atrás, cada um faria sua parte sem interferir nas tarefas do outro. Somente assim, aquela garota magrela que mal atingira 19 anos poderia estar correndo pela rua com tantas coisas vagando pela cabeça.
Na
verdade, não é que estivesse totalmente avulsa do mundo, não dessa vez, mas
precisava no momento que as pernas obedecessem ao ultimo comando dado: repetir
seu trajeto desde que saíra daquele prédio. E como bons empregados que sempre
foram, elas mantinham sua tarefa sem ficar toda hora perguntando ao patrão para
onde deveriam ir, pedindo orientações. Ela não precisava disso, tinha mais com
o que se preocupar, na cabeça, contabilizava o prejuízo, mais ainda não queria
admitir!
Já era
tarde da noite, ao menos nos padrões comuns para quem não tem uma vida social
muito ativa. Noite atípica, onde as luzes de uma modesta metrópole não haviam
conseguido sumir com todos os astros do céu. A garota continuava correndo,
ainda com a roupa suja que vestia desde o início da tarde, saíra de casa sem
ter se trocado, na urgência de quem espera que o tempo que demorou a fazer algo
não signifique a fronteira entre sucesso e fracasso.
Evitou
demonstrar qualquer sinal de pressa ou de ansiedade ao passar pela guarita do
condomínio, quanto menos soubessem de sua vida melhor, e sair às pressas de
casa quase onze horas da noite, ela sabia, renderia assunto para duas ou três
semanas!
Passou
pelas travessas que constituíam seu bairro, vendo becos e semáforos como se por
detrás de uma janela em dia de chuva, sem assimilar tudo, se aproveitando do
piloto automático em que estava, graças a ele, poderia se focar no que fazer
caso não achasse o objeto que estava procurando. Ela ainda não entendia como
pudera ser tão desleixada. Mentira sabia muito bem. Mas ainda assim era um
absurdo que tivesse acontecido com algo que ela tanto usava, como poderia ter
deixado algo tão importante de lad... . Parou, de forma tão brusca que os
protestos das pernas poderiam ter chamado a atenção dos vizinhos da janela
aberta que acabara de passar.
Como se
estivessem aguardando o momento certo, as lembranças do que acontecera mais
cedo começaram a voltar, acompanhadas das dúvidas, pânico, sensações que ela
não lembraria se tivesse escolha, tudo isso sem motivo aparente. Precisou se
esforçar para perceber o que causara essa súbita lembrança. Ela havia pegado um
caminho aparentemente mais rápido, e na pressa estava ha apenas meia quadra de
onde o encontro com o bando de garotos de rua acontecera.
Ela
entendia disso, havia lido em algum lugar que o inconsciente usava de
artifícios para evitar que a pessoa entrasse em uma situação de perigo já
experimentada antes, mesmo que fosse uma lembrança residual, em casos extremos.
Na concepção dela, aquele era mesmo um caso extremo.
Sem se dar
conta, ficou estática, mãos no bolso do moletom encapuzado, encarando a
esquina, da ultima vez que a vira, estava no alto do prédio ao lado. Nem se
ariscara a olhar de novo quando saiu de lá, e agora não havia qualquer sinal de
que uma equipe policial estivera no local, talvez a própria polícia não tivesse
dado a devida atenção.
Mas o que
importava era que ela não parecia capaz de dar um passo se quer naquela
direção. O motim das pernas finalmente havia estourado, e parecia que duraria
mais do que greve de instituições federais! Conforme os segundos passavam, ela
se dava conta de que estava em um dia particularmente imprudente! Visitara a
amiga sem avisar, andara por uma região perigosa sozinha, caíra na armadilha de
marginais, evitara as autoridades, escondera qualquer informação da própria mãe
( que fez o favor de não perguntar nada também...), e agora voltara para o
local onde tudo havia começado, por culpa de um aparelho simples ( NÂO!) que
ela dava uma importância absurda! Sozinha, suja, cansada e com fome por que
fora burra o suficiente para deixar um I Pod cair do bolso, mas a estupidez nem
se comparava ao fato de ter saído de casa para ir procura-lo, a possibilidade
de alguém tê-lo levado nem lhe passara pela cabeça!
Tudo isso
passava pela cabeça agora com tanta clareza, que ela se questionou de onde
vinha a súbita prudência. Não precisou pensar muito, estava com medo, era
simples, não queria estar ali e se xingava mentalmente por ter se colocado
naquela situação. De repente o aparelho já não parecia mais tão importante,
poderia até mesmo pedir outro para o pai antes que ele voltasse de viagem. O
problema seria inventar uma desculpa para tamanha urgência, uma que convencesse
a mãe de que nada estava errado.
Agora que
pensara melhor, ela estava com a sensação de que ouvira a mãe tentar lhe falar
algo, possivelmente que comprasse algo...quando algo lhe tirou dos devaneios:
- Mariana...?-
O susto
foi algo diferente do habitual das pessoas, do tipo que lhe faz ficar imóvel,
ao invés de gritar e pular para o lado. Virou-se para encara o recém-chegado,
embora pelo tom de voz essa pessoa não parecia ter chegado agora, parecia ter
sido uma segunda ou terceira tentativa de contato.
Ao se
virar, deparou se com uma figura mais baixa que ela própria. Usava uma camiseta
azul, com estampas mostrando diversas manchas de tinta em suspensão em água,
cadarços amarrados em uma calça leg, sob um blusão escuro. Cabelos cacheados,
negros e cheios coroavam um rosto que tantas vezes a fez compania quando
precisava conversar. A garota de azul se aproximou mais uma vez, sorrindo
percebendo que obtivera resposta:
- Putz, faz isso não, não faz ideia de como estavas
tensa parada aí olhando por nada! Vem cá, tá fazendo o que aqui? A essa
hora...Mariana, falei com você!
Mariana
precisou de dois segundos para ela mesma perceber que a presença era amiga, de
repente o beco já era mais tão perigoso assim. Era essa a vantagem de estar
junto de Clara, ela passava essa sensação de leveza, de que nada era tão sério
quanto parecia.
- Não, não foi nada não! Eu ouvi falar do que
aconteceu por aqui hoje, e sabe como é né? Nada acontece por aqui nunca, achei
que dava pra vir dar uma espiada, coisa rápida!- Disse, tendo mais uma vez que
apelar para sua dissimulação, ainda que a amiga quase nunca caísse, mas que
opção tinha?
- Bom, não pareceu isso não, você ficou aí, toda
estranha, olhando pro local do incidente, é, eu ouvi disso sim no instante em
que voltei pra casa. O vigia comentou com o meu pai, que fez questão de me
proibir de sair dez segundos depois!- Disse como quem comentava o ultimo jogo
de volei do colégio.
- Mas se você saiu...seu pai...?-
- Relaxa, ele foi beber um pouco, não deve voltar
tão cedo!-
- Tentei passar na sua casa hoje de tarde, mas você
não estava!- Deixou escapar, e logo em seguida se amaldiçoando por ter deixando
tantos detalhes fugirem assim, a amiga sabia juntar fatos muito bem!
- Pra que? Me disseste que ficarias ocupada a tarde
toda cuidado da filha da Tia Marília, e que não dava pra vir hoje, então saí
com o meu pai...esqueceste foi?- Perguntou, ela tinha um jeito de levantar as
sobrancelhas que, para Mariana já era um sinal claro de que estava sentindo
algo errado na história!:
- Pooorra! Tens razão!! Fiquei mesmo...o pior é que
a pirralha é um porre, gosta de atenção o tempo todo, não é do tipo que
bagunça, mas não desliga nunca e está sempre falando, mesmo que não seja com
ninguém! A mãe dela ia me pagar bem, cacete...-
- Putz, se ferrou legal! Bom, já que já vimos tudo
o que tínhamos que ver...
- O que eu falo pra mãe dela?...
- Ô, sai dessa, amanhã você fala com essa senhora e
te explica, diz que estava ocupada e que não deu pra ir, estavas fazendo o que
mesmo?
Ok, pra
mãe era uma coisa, agora mentir pra amiga era mesmo algo difícil, pensou
rapidamente em alguma coisa simples, que não tivesse detalhes muito elaborados,
complicados de se lembrar depois, mas foi poupada do trabalho pelo celular
tocando:
- Só um inst...AAAAH MÃE! Não grita! Quê?!!?!?!
Sim, sim, eu to sabendo do que houve! Sim, foi aqui perto e daí? Onde eu tava?
Como assim já falou com o pai da Clara? Ah tá, estas bebendo com ele, aff
mãe... Olha mãe, não posso falar agora, vai pra casa que eu explico tudo! Ok?
Tá, te amo lindona!- Olhou pra amiga, que como era de se esperar, pareceu ter
assimilado muito bem a informação de que nem a mãe sabia onde ela estivera no
fim da noite...
- Olha, minha mãe tá me querendo em casa agora! E
já que o seu pai estava com ela, ele vai voltar agora mesmo, se eu fosse você
voltava também, ou vai ser pega! Anda, xô mulher!-
- Você vai me explicar isso direito, uma hora ou
outra, sabe disso!-
- Tá, tá, penso no seu caso amanhã, até mais
tarde!- E se virou indo na direção de casa, sem sinal algum da urgência que a
trouxera até ali, esquecida até mesmo do que a levara para o local que
estava...
Não chegou
a cumprir o prometido, aquela noite não usou o computador, não entrou na
internet nem teve sua dose diária (matinal uns diriam) da vida social on line.
Estava exausta, mental, social e fisicamente! Fora muita coisa pra ela,
sentia-se mal por não poder contar à amiga a verdade, mas queria chegar logo em
casa, entrar no quarto e fingir que estava dormindo, o banho teria de ficar
para amanhã, os interrogatórios da mãe quase nunca alcançavam o dia seguinte.
Estranhamente não teve os sonhos repletos de cenas de cadáveres ou de
garotos perdidos em seus próprios mundos de drogas e marginalidade, nem de
atentados contra sua vida ou carreiras pelas ruelas e becos do bairro, só o que
pode lembrar-se de seu sonho foi o rosto de sua amiga a acordando do transe em
frente ao beco do massacre, falando coisas inaudíveis enquanto ela percebia uma
figura escondida por detrás da cena, entre uma área de penumbra onde os postes
deficientes de luz não tinham competência para iluminar.
Havia
alguém ali, não escondido, mas desafiando-a de ir averiguar sua identidade, sem
ajudar nem atrapalhar, como se testando sua coragem. Um vulto que a enfrentava
a se aventurar.
Acordou
ainda exausta, o sol ainda não surgira, e ela não sabia que horas poderiam ser.
O passarinho de sempre fazia festa na árvore do lado de fora, gritando como se
todos tivessem seu pique e cronograma de madrugador, uma completa falta de
respeito pelo sono dos outros!
Limpou a sujeira dos olhos, só o suficiente para
que pudesse abri-los, e tentou alcançar o celular al lado da cama, deixara no
criado mudo onde o despertador pudesse ser calado e lhe cedesse a meia hora de
tolerância que sempre se auto presentava!
Quando sua
mão tocou o aparelho esbarrou em outra coisa de tamanho parecido. Demorou
apenas vinte segundos para assimilar e olhar com mais atenção para o que estava
ali em cima, fazendo companhia para o telefone. Se tivesse um meio de registrar
a velocidade com que os pulmões se esvaziam, ela sabia, teria batido um
Recorde. Ali em cima do móvel encontrava-se o I Pod que tanto problema causara
na noite anterior, com a tela totalmente estraçalhada e sem o menor sinal de
como havia ido parar ali.
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