Silêncio, a completa ausência de som. Estado que aqueles que se dedicavam a tal estudo acreditavam ser quase impossível de se alcançar nas condições terrenas. Onde qualquer vibração sônica seria incapaz de perturbar o interior de seu ouvido, seja pela interferência de outros meios ou de pela falta de um meio por onde se propagar.
Era isso que Mariana mais desejava no momento, por que estava sendo obrigada a escutar os mais diversos estilos musicais que os outros ocupantes do transporte público haviam decidido compartilhar com os outros passageiros!
De fato, nunca fora um problema tão grave, do tipo de coisa que se lê na internet, se ouve dos amigos, mas nunca é com você. Aquele repertório de qualidade questionável, daquele ser que insuspeitosamente acredita que haverá um caça talentos dentro de um ônibus, e pior, que ele esteja à procura de um DJ de coletivos!
Mas agora era uma realidade para ela. Pois o seu guardião, seu guarda costas para esse tipo de agressão (agressão, claro!) não estava mais ali. Estava oficialmente de luto! Nesta manhã havia encontrado o seu I Pod em pedaços, em cima da cômoda. E é claro, como qualquer pessoa normal, havia encontrado a resposta mais lógica para o problema. Gritara pela mãe, obviamente só ela poderia explicar aquilo, aquela tragédia!
Fora imprudente, fora mal-educada, fora burra! Ok, estava nervosa, pelas razões erradas para falar a verdade. Afinal, apenas depois que sua briga com a mãe havia terminado ela se tocou que o aparelho não deveria estar ali, teve então um pouco de dor de cabeça para assimilar os fatos.
E era isso que a salvava no momento, tentava entender como o I Pod estivera ali nesta manhã! Não era possível, decididamente não era nem um pouco plausível!
Em meio aos embalos de "Eu quero corda, eu quero corda, eu quero corda, corda, cordar contigo aqui comigo!”, sucesso do momento, ela quebrava cabeça para racionalmente entender o causo. Ela mesma poderia ter quebrado o aparelho na hora da fuga, e ter deixado em casa antes de sair noite passada, ou não, ou algo assim. Não estava tendo muito êxito. A mãe também não ajudara muito, precipitara-se a gritar com a filha quando esta começou a gritar também, a partir daí a conversa não havia rendido muito!
Mas a verdade era essa, seu companheiro musical a abandonara, e agora ela pagava o preço, ela, Gustavo Lima e você!
Desceu do ônibus com mais entusiasmo do que o usual. O sol quente fez questão de saudar a cabeça castanha que se expos, e o fez caprichosamente. Olhou ao redor, se certificando de que era mesmo a parada certa. Bom, havia acertado o local. Isso era muito, um verdadeiro mérito para alguém que havia se mudado para a cidade ha apenas seis meses. Sentiu orgulho de si mesma e até mesmo quase esqueceu de que havia tido quase uma hora inteira ouvindo um playlist alheio a sua vontade.
Subitamente, sentiu dois dedos gêmeos, sincronizados e malditos acertando seus flancos, causando o habitual choque em baixo das costelas que ela odiava tanto!
- Filha da put...CLARA!!!- Disse quase em sussurro, palavrões nunca foram um hábito bonito, ela sabia, mas foda-se, ninguém ouviria se falasse baixinho:
- E aí, de boa?- Clara estava ainda com a camiseta azul de tintas em suspensão, claro, devido ao seus gotes com pintura, era comum que ela demorasse mais a trocar as roupas desse tema por outras.
- É, quer dizer, não, meu I Pod quebrou...- Enfim alguém que ela não poderia culpar e nem ao menos iria gritar com ela por causa disso.
- Putaquepar...! Como isso aconteceu?-
Ok, ela gritou, e pior, xingou de coisa pior que a própria mãe..
- Eu sei lá, acordei e ele estava quebrado ao lado da cama, não sei mesmo!- Era a hora de desabar, mas ainda não se sentia confortável para isso, no meio da rua?
- Calma, bora entrar na lanchonete primeiro, não quero ser assaltada! - Caminharam juntas em direção a uma confeitaria, que já era costume das duas frequentar.
Entraram, não havia muitas pessoas no momento. A padaria era decorada em tom marrom, acolhedor, um aroma que tangenciava o doce preenchia o local, o suficiente apenas para sugerir a especialidade da casa, mas sem desencorajar a pessoa a provar de seus lanches salgados também.
Sentaram e logo estavam prontas a continuar a conversa, quando Clara decidiu que primeiro pediriam o que comer. Ela ficou esperando...e quando a comida chegou, devorou o que quer que fosse em velocidade alucinante, queria falar, ouvir da amiga uma opinião mais sensata, ouvir algo que a declarasse "não-louca":
- Pronto, conte como foi que ele quebrou- Disse a dona dos cachos negros, usou o tom de voz que se utiliza quando se tenta acalmar alguém em prantos, o que fez Mariana até mesmo olhar pra trás, procurando quem estava chorando.
Bom, ela já havia decidido, se contaria a alguém a verdade, teria de ser à ela. Afinal, não teria uma opinião válida se ficasse cortando pedaços, contando só o que interessava. Por outro lado, contar que acordara em cima de um prédio, um pouco depois de ser atacada em um beco diminuíam drasticamente as chances de ser declarada sã.
- Ok... mas fica quieta e deixa eu terminar...- Contou tudo, tudo o que pode se lembrar ao menos. Não percebeu, mas em certas horas sorriu enquanto narrava com certo "quê" de aventura, onde ela era a protagonista. Clara não sabia se a esbofeteava ou se ria. Ou se quer se acreditava!
Por fim, ficou olhando esbaforida para a amiga, atônita a maneira como ela encerrava a narração onde ela mesma virara uma personagem.
- E você está assim por causa de um I Pod...O QUE É QUE VOCÊ TEM NESSA DROGA DE CABEÇA HEIM?!?! DEUS! PODERIAS ESTAR MORTA AGORA SUA IDIOTA!!! E A SUA MÃE NEM FAZ IDÉIA, AH NÃO, VOCÊ NÃO PODE FICAR ESCONDENDO ISSO! E A POLÍCIA, COMO É QUE VOCÊ NÃO DISSE NADA A ELES, FUGIR DE UM LOCAL ASSIM É CRIME SUA BABACA!- Ela explodira, claro, nem todos tinham os nervos de aço de Mariana, mas agora ao menos umas quinze pessoas estavam sabendo de parte de sua história, graças ao discurso de Clara.
- Clara PARA! Tá todo mundo olhan..bora, vamos em bora!- Jogou as mãos na direção da boca da amiga, silenciando o surto justificado. Levantou-a da cadeira, tarefa fácil para alguém com muita altura se comparada à outra.
Seguiram descendo a rua, tendo o sol castigando suas nucas. Decidiram se recolher em um espaço aberto, em frente a uma igreja, onde uma praça agora sediava todos os tipos de festividade da paróquia, mas que no momento possuía apenas um ou dois ciclistas.
Após o surto, Clara concordou em analisar a situação sob o ponto de vista racional que tanto a valorizava. Veredicto:
- Você mesma quebrou e deixou em casa, sem se ligar, possivelmente preocupada em não deixar a tua mãe perceber o que acontecera!- Disse, como quem dava um diagnóstico claro, "Bolinhas vermelhas no rosto? Sarampo ora!".
- Não Mulher, to te falando que eu saberia se tivesse sido eu!- Ela precisava se incisiva, não tardaria a chegar a hora de voltar pra casa e almoçar e ela queria chegar a uma conclusão.
- Claro que foi? Sabes que és distraída, por que não? E pelo o que eu entendi, teve uma hora que você desmaiou, pode ter quebrado na queda. Sim, és distraída, não faça essa cara! Quer apostar? Olha o que eu peguei!
Arregalou os olhos de surpresa, a amiga estava com o seu anel nas mãos. Brincando com ele, passando de um dedo para o outro como se fosse uma moeda!
- Quando foi que...tudo bem, não quero saber! Mas isso não explica como eu fui parar em cima do prédio, explica? Tá, me dá isso!- Precisava ter de aguentar esse tipo de coisa da amiga, não era incomum que ela pegasse coisas de suas mãos, sempre através da desculpa descarada de "carinho"
- Ué, sonambulismo rsrsrs- Oficialmente Clara não estava mais levando a conversa à sério, aliás, Mariana não estava mais sendo levada à sério.
A conversa das duas não tardou a tomar outro rumo. Não demorou a passar por diversos outros assuntos menos sérios (mas ainda mais sérios que Mariana). Até que as duas declararam que deveriam voltar. Tecnicamente, Mariana estava em um período perigoso, até a raiva da mãe passar.
Chegando a casa, refez a rotina de cumprimentar Deus e o mundo, qualquer um que passasse por ela. Não que fosse falsidade, mas ela aprendera a ser educada e, bom, aprendeu que era sempre bom contar com a boa vontade das pessoas quando precisasse. Educação abria portas.
Entrou pela porta da cozinha, o apartamento lhe dava esse luxo. Não que fizesse diferença, pela disposição dos aposentos uma porta ficava ao lado da outra para que olhasse pelo corredor do prédio.
Sua mãe, ao que parece passara o dia deitada no sofá, e agora assistia um seriado qualquer em um dos diversos canais da TV à cabo.
- Oi mãe, trégua valeu?- Disse, balançando a mão, simulando uma bandeira.
- Boa tarde. Vou começar a achar que você realmente esquece as vezes o caminho de casa...
- Olha mãe, sério eu queria.
- Para, não precisa...eu sei que aquilo era importante pra você. Sei que estavas nervosa e por isso eu vou te entender. Sou sua mãe, não preciso que você venha se explicar, saíste daqui de dentro ó- E apontou para o próprio ventre, e por alguns segundos, Mariane pôde sentir saudade do tempo em que mais que carne e líquidos, sua primeira morada era feita do carinho e amor que agora eram capazes de destruir todo o clima ruim que estivera entre as duas...
Com os olhos marejados subitamente, o que era raro, ela se projetou eu direção à mãe, buscando um abraço. Depois de recebe-lo, teve como um bônus um pedido:
- Agora aproveita e lava aquela louça ali, tá desde ontem e eu to com preguiça! Vai lá chorona rsrs!
É né...da hora a vida...
Mas tudo bem, se fosse de outro jeito ela teria que se preocupar com os remédios e pílulas, sua mãe não estaria bem!
- Mas ó, anda logo que você tem serviço! A Dona Marília quer que você vá cuidar da filha dela daqui a uma hora e meia!- Disse da sala, mudando de canal, braço erguido, desplicente, balançando sempre que o canal trocava!
- Jura? Caramba...queria dormir mais- Era verdade, o maldito passarinho a acordara no horário de quem saía para buscar emprego - Quando foi que ela pediu isso? Ela ligou?- Gritou da cozinha, o que dada a distância mínima dos dois cômodos era totalmente desnecessário
- Não não, e não vais dormir não, afinal deixaste ela na mão ontem. Ela me pediu isso ontem mesmo, de noite quando vieram aqui. - Disse a mãe, ainda displicente, mas com um tom de advertência que se fazia necessária por já conhecer os interesses da filha.
Algo fez um som de vidro quebrando, e Mariana sentiu o sangue jorrar farto do dedo quando o estilhaço de prato passou voando da pia, cortou sua pele e passou a milímetros de sua bochecha.
O palavrão foi suprimido, ela aprendera a fazê-lo na presença da mãe, e se conteve a virar para ela e perguntar:
- A Tia Marília esteve aqui? Que horas? Por que não me contou?
- Esteve, ela veio aqui uns minutos depois que você saiu de casa com aquela pressa toda, eu tinha acabado de comentar dela pra você, acho que não ouviste, vieram ela e a filha...Mariana, Deus! Você está pálida...